Filme Os Intocáveis e a prática do acompanhamento terapêutico (AT)


O filme é antigo, mas vale a pena (re)ver.

Assistir filme é maravilhoso, não é mesmo? Tenho uma indicação bem interessante.


“Os intocáveis”, de 2012, é um filme baseado em uma história verídica. Sim senhores (as), a história é real. É emocionante do começo ao fim. Consegue ser algo cômico e ao mesmo tempo dramático devido às situações que os personagens experienciam. Este filme conta a história de Philippe, um homem rico, tetraplégico e que precisa de cuidados constantes.


Em geral, ele é visto pelos amigos e familiares como um homem totalmente vulnerável, limitado, sem capacidade alguma. Por outro lado, retrata a história de Driss, um jovem negro, pobre, que mora na periferia com sua mãe e vários irmãos e tem dificuldades financeiras.


(Alerta de Spoiler abaixo)


Essas duas pessoas, de mundos “completamente diferentes” se encontram quando Driss – interessado em se manter com uma bolsa do governo – decide se candidatar a vaga de cuidador. Todos que estavam concorrendo a esta vaga tratavam Philippe de forma fria, formal, levando em consideração apenas sua condição física e não a sua pessoa, suas vontades. Driss, em contrapartida, foi o único que não o tratou assim, que não sentiu dó dele e por isso Philippe decidiu contratá-lo, dar uma chance, mesmo sem ele ter nenhuma formação para tal “cargo”.


Dessa relação – quase que improvável – surgiu uma grande amizade, isto é, surgiu um companheirismo recíproco, no qual ambos aprendiam e ensinavam um ao outro no decorrer do tempo que passaram juntos, cada um a sua maneira, da forma que podiam.

Este filme brilhante, a meu ver, abrange uma série de temáticas relevantes como o sofrimento físico e psíquico (de ambas as partes, de formas intensidades diferentes), as discrepâncias socioeconômicas e a constituição dos relacionamentos.


“Os intocáveis” demonstra de forma clara, porém bastante sensível, o cuidado genuíno, um vínculo estabelecido através de uma relação empática, sincera, sem esperar nada em troca. Driss tinha um olhar e uma escuta diferenciada, isto é, ele respeitava Philippe – suas opiniões, vontades, sentimentos, suas dificuldades – o encorajava na medida do possível e acima de tudo contribuía significativamente para o exercício de sua autonomia. 


Neste filme, neste caso em específico, Driss não tinha formação para cuidar de Philippe, apesar de sempre ter cuidado de seus irmãos desde muito cedo. Acredito que a teoria e a formação acadêmica na prática do acompanhamento terapêutico sejam fundamentais, mas é preciso ir mais além. Junto a isso, é necessário ter uma sensibilidade, enxergar a pessoa, o ser humano que está diante de ti, suas potencialidades e não somente suas limitações e/ou dificuldades.


Não é uma relação forçada, pelo contrário, é uma relação que faz bem tanto ao profissional quanto para a pessoa que necessita do acompanhamento. Penso no acompanhamento terapêutico – assim como retratado no filme – como uma possibilidade de transformação, isto é, uma humanização da relação “acompanhante-acompanhado” que tenha como princípio básico construir novos horizontes existenciais para o acompanhado.


Esta relação, vista por essa perspectiva, beneficia de forma relevante a qualidade de vida e bem estar do acompanhado, contribuindo, assim com o seu desenvolvimento e sua autonomia. Além de favorecer o crescimento pessoal de ambos na medida em que o acompanhamento terapêutico é realizado.